Três perguntas para: Ronaldo Albertino

Em outras entrevistas neste espaço, executivos fizeram suas apostas sobre como pode se comportar a área de desenvolvimento hoteleiro. No curto prazo, fala-se nos em um boom de conversões. É, de fato, uma teoria bastante provável – e elas já começaram. Agora, e no médio e longo prazos, o que vai acontecer? Convidamos para o Três perguntas para de hoje (14) Ronaldo Albertino, diretor da HotelCare, para dar seus pitacos sobre o tema.

O convite a Albertino não foi por um acaso: ele entende do riscado. Com quase 30 anos de carreira, o executivo já liderou a área de Desenvolvimento de grandes redes nacionais e internacionais. Entre elas, IHG (InterContinental Hotel Group), Grupo Posadas e Bourbon Hotéis & Resorts. Hoje, ao lado de Jeferson Munhoz, comanda a HotelCare, administradora hoteleira que vem se expandindo pelo país.

“Teremos que aprender a olhar a floresta e não a árvore isoladamente. A crise é a árvore: pode comprometer a floresta é verdade, mas se cuidar bem da praga, ela se recupera e a floresta fica viva e sadia porque todo o resto do ecossistema está bem”, afirmou Albertino ao Hotelier News. No bate-papo, ele também falou sobre o novo normal e como os investidores podem olhar para a hotelaria no futuro próximo. Leia até o final!     

Três perguntas para: Ronaldo Albertino

Hotelier News: Dá para saber como será o “novo normal” no pós-pandemia?

Ronaldo Albertino: Todos os exercícios de futurologia de curto prazo são temerários. As de longo prazo são mais consistentes tais como tendências de consumo e comportamento e, ainda assim, muitas delas não se tornam realidade. Existem muitas especulações e hipóteses que não ficam em pé quando nos referimos às pessoas, nações e culturas tão diferentes. Procedimentos que usamos regularmente na hotelaria podem e devem ser explorados e comunicados com mais ênfase. Não é de hoje que somos referência de processos de limpeza, por exemplo. Temos que adaptar as nossas operações e impulsionar as equipes de marketing para propagar essa missão importantíssima que é comunicar o que já fazemos. Minha avó no interior dizia que “galinha que bota ovo, carcareja”.

Três perguntas para - Ronaldo AlbertinoAlbertino faz uma boa analogia com a natureza para mostrar seu otimismo

HN: E as relações de investimento? Os investidores vão deixar o setor de hotelaria?

RA: Toda crise é uma oportunidade, e a etimologia da palavra já nos dá uma dica. Uma das definições é a faculdade de distinguir, momento difícil e decisão. Nossa indústria sempre trabalhou no longo prazo, nenhum investidor hoteleiro tem característica de alguém que investe na bolsa, por exemplo. O investidor tradicional sabe que é justamente no momento de crise que deve aportar e comprar ativos, mas, se não tem recursos para isso, não deve vender. Essa última posição é também uma decisão e não necessariamente é negativa, pelo contrário. Se um ativo pode gerar um fluxo consistente nos próximos anos, por que venderia o hotel? Lembremos que para fazer um edifício, nas melhores das hipóteses, demora quatro anos. Vamos nos desfazer por causa de quatro ou seis meses de crise? Não faz sentido. Por outro lado, caso o investidor esteja em posição de venda, quer por necessidade ou decisão pessoal, os compradores nunca estiveram tão de olho no bom momento de compra.

HN: Na sua opinião, projetos em fase de estudo vão parar?

RA: O universo está em expansão e a economia não é diferente. Por isso, sou um otimista convicto. Vejamos o exemplo dos flats: lá pelos anos de 1998 a 2001, houve uma expansão enorme de empreendimentos, foi uma febre. Muitos foram vendidos pela metade do preço de lançamento depois de três anos de operação. Foi chamado o mico dos flats. São Paulo tinha algo como 20 mil apartamentos e foi para o dobro. Obviamente, a ocupação caiu, assim como a diária também. Vinte anos depois, São Paulo é uma das melhores cidades no país em performance nos dois indicadores. Quem comprou pela metade do preço, está sorrindo de orelha a orelha. Além disso, o destino gerou infraestrutura para acolher grandes eventos. O Rio de Janeiro sofreu com a falta de apartamentos hoteleiros e perdeu a liderança em eventos importantes. Teremos que aprender a olhar a floresta e não a árvore isoladamente. A crise é a árvore: pode comprometer a floresta é verdade, mas se cuidar bem da praga, ela se recupera e a floresta fica viva e sadia porque todo o resto do ecossistema está bem. Tem muitas cidades no Brasil que precisam de infraestrutura hoteleira. Há espaço, portanto, para crescer e acompanhar a economia.

(*) Crédito da foto: Divulgação/HotelCare

Comentários