Transgêneros: duas histórias que precisam ser contadas

Melissa nasceu menino, mas não se sentia como tal desde muito jovem. Já Oliver chegou ao mundo como uma menina, porém passou a se sentir desconfortável com seu corpo ainda na adolescência. Hoje, ambos dão os passos decisivos em suas transições de gênero, mirando em pouco tempo assumir as identidades que mais se sentem à vontade. Histórias de vida como essas mostram como a dualidade rosa e azul não dá mais conta do que as pessoas vivem. Hoje, a diversidade dá o tom na sociedade.

Oliver e Melissa estão longe de serem personagens fictícios. Pelo contrário, eles têm orgulho de suas origens e de quem são. Ambos não têm receios em dizer que são transgêneros. Na realidade, ainda não são. A transição está no começo e um longo e muitas vezes penoso caminho está por vir. Nessa trajetória, muitas sessões de terapia e consultas médicas, dezenas de injeções de hormônio e, infelizmente, alguns episódios de preconceito provavelmente os aguardam. Nada, contudo, que possa assustá-los. Decididos e corajosos, já deram um passo importante nessa jornada: aceitam-se plenamente e já se empoderaram dos gêneros que desejam transacionar.

Oliver e Melissa agora são quem sempre desejaram ser

Com 20 e 22 anos, respectivamente, Oliver e Melissa encontraram no trabalho um ambiente propício para percorrer esse caminho. Hoje, atuam juntos no Grand Hyatt São Paulo: ele como garçom, ela como hostess, do C-Cultura Caseira, um dos três restaurantes do cinco estrelas paulistano. Na rede norte-americana tiveram ainda a aceitação que necessitavam, ganharam apoio e compreensão de onde menos esperavam. Estimulados pela empresa, aceleraram a transformação que estava dentro deles. 

Como a transição está caminhando? De que forma a Hyatt Hotels deu suporte aos dois? Quem são Oliver e Melissa? Quais suas histórias e planos para o futuro? Para responder essas indagações, o Hotelier News abre hoje (16) uma série de três reportagens sobre transgêneros na hotelaria. A ideia é mostrar, a partir da trajetória desses ricos personagens, como o mundo é plural e como o mercado de trabalho deve espelhar essa diversidade, sempre sem preconceitos. 

Transgêneros: empoderamento e aceitação

A reportagem ouviu, nas entrevistas com Oliver e Melissa, uma frase bastante comum entre as pessoas em transição. “Estou em um corpo que não me identifico.” De fato, a declaração resume bem a definição acadêmica de transgêneros, termo usado pela primeira vez pelo psiquiatra americano John Oliven, da Universidade de Columbia, no livro Higiene Sexual e Patologia, de 1965.

A definição de transgêneros, portanto, engloba homens e mulheres que não se identificam com seu sexo biológico. Abrange ainda pessoas que não se veem em nenhuma dessas opções. “Ser trans não é uma escolha”, explica Fabíola Luciano, psicóloga especialista em terapia cognitiva comportamental. “É algo intrínseco ao indivíduo. O trans convive com o gênero que vai transacionar internamente. Às vezes, percebe isso rapidamente. Outros só conseguem ter certeza mais tarde, mas tudo começa na primeira infância”, completa.

Transgêneros - Fabíola LucianoFabíola atende a pacientes transgêneros há cinco anos

Estudos apontam que não são apenas questões genéticas e hormonais que estão por trás da transexualidade. Especula-se que exista também um componente biológico na origem de tudo. Fabíola, que auxilia pacientes no processo de transição há cinco anos, argumenta ainda que mudanças sociais recentes, ao trazerem mais luz sobre o tema, ampliaram o entendimento relativo à questão.

“Vivemos uma era de empoderamento. Por isso, hoje, com certeza as pessoas procuram muito mais a transição do que no passado. Elas não estão mais sozinhas nessa jornada. Há mais espaço para a diversidade na sociedade. Ainda assim, o preconceito ainda é maior do que a aceitação”, diz Fabíola, que complementa. “Além disso, trata-se de um processo voltado para si mesmo e, sobretudo, bastante solitário.”

Segundo a psicóloga, é possível dividir o processo de transição em três fases, que, juntas, podem durar aproximadamente três anos:

Fase 1: aceitação e empoderamento 

Bastante emocional e psicológica, a etapa tem origem na infância, mas cada pessoa tem seu tempo para atentar sobre sua transexualidade. Nesse momento, processo terapêutico ajuda bastante no entendimento e na aceitação interna. Conversar e se abrir com a família, preparar-se psicologicamente para se posicionar socialmente como mulher/homem trans, trocar o nome e modificar os trajes sociais são fundamentais neste momento. "É a fase mais importante. Se o indivíduo não alicerça bem essas questões, não consegue suporte interno para se empoderar”, afirma Fabíola. “Ser enxergado socialmente com o gênero que se identifica é uma conquista extremamente gratificante para os indivíduos”, completa.

Fase 2: hormonização 

A orientação de um endocrinologista é vital nessa etapa. No caso de homens trans, o acompanhamento de um ginecologista é muito importante. "A partir daí, o indivíduo já começa a se mostrar socialmente da maneira que se afirma, deixando claro isso na aparência física. Corte de cabelo, barba, modificação do formato de rosto, tudo começa a ressaltar essa identidade", diz Fabíola.

Fase 3: cirurgia 

Essa é uma decisão muito particular. Há quem se identifique com o gênero oposto, mas não deseja necessariamente ser operado. Existe quem pretende apenas tomar hormônios ou modificar características externas, por exemplo. De qualquer forma, a cirurgia normalmente conclui a transição (para quem decide segui-la). “A operação é um fechamento importante, a consolidação de todo um processo. Ainda assim, ela recomendável após dois anos de acompanhamento psicológico”, ressalta Fabíola.  “No período pós-cirurgia, muitas vezes há necessidade de acompanhamento emocional até o indivíduo se sentir pleno e seguro para seguir a vida”, comenta.

Até o momento das entrevistas para essa reportagem, Oliver e Melissa estavam na primeira fase da transição. Os dois fazem sessões de terapia e já frequentam o endocrinologista. Ambos têm desejo de fazer cirurgia.

Hyatt Hotels: política de RH

Oliver e Melissa chegaram ao Grand Hyatt São Paulo em momentos diferentes, mas de maneira parecida. Os dois integraram – em edições distintas – o programa de inclusão de jovens no mercado de trabalho. O primeiro, na realidade, ainda participa do projeto. Já a segunda foi efetivada em junho de 2014 e, há mais ou menos um ano e meio, atua como hostess. "Muito legal a iniciativa do hotel de não se opor em colocar uma funcionária trans frente a frente com os clientes”, ressalta Fabíola.

Os dois jovens iniciaram a transição já atuando no hotel, e em momentos praticamente simultâneos. Miguel Angel Bermejo, diretor regional de Recursos Humanos da Hyatt Hotels, conta que a rede americana vem dando todo apoio aos dois funcionários. “Nosso propósito é ajudar as pessoas a fazerem o melhor”, explica o executivo, destacando que Melissa fez sessões de terapia com um psicólogo disponibilizado pelo hotel. “Oferecemos também apoio psicológico à mãe para que ela entendesse melhor o processo pelo qual a filha está passando”, acrescenta.

Transgêneros - Miguel Angel BermejoBermejo: rede ofereceu ajuda psicológica à mãe de Melissa

Bermejo explica que a Hyatt Hotels tem um posicionamento global focado em diversidade e inclusão. Dentro dessa orientação, cada unidade é instada a criar um comitê interno de diversidade. “Há mais ou menos um ano montamos o nosso no Grand Hyatt São Paulo. A partir dessa iniciativa, surgiu a necessidade desses colegas nos procurarem para ajudá-los”, diz o executivo. “O objetivo do comitê é gerar entendimento e compreensão para evitar qualquer tipo de exclusão ou preconceito. É um compromisso assumido pela empresa que faz com que ajudemos os colaboradores a ser a melhor versão deles mesmos”, completa.

Além do apoio psicológico, medidas aparentemente simples auxiliaram Oliver e Melissa durante os primeiros passos da transição. Entre elas, a troca do uniforme de ambos, bem como a permissão para utilizarem os vestiários masculino e feminino, respectivamente. A iniciativa mais marcante, contudo, não foi nenhuma dessas.

“O dia em que entregamos a eles as placas de identificação com seus novos nomes para colocar no uniforme foi emocionante”, relembra Bermejo. “Em paralelo a todas essas medidas, fizemos uma ampla divulgação nos nossos canais de comunicação interno sobre o Oliver e a Melissa. O objetivo foi ser o mais transparente possível para gerar empatia ampla”, completa. 

Laura e Matheus agradeceram muito por tudo isso. Agora, já são quem sempre quiseram ser.

(*) Crédito da capa: Filip Calixto/Hotelier News

(**) Crédito da foto: Ricardo Gomes Angel/Unsplash

(***) Crédito da foto: Divulgação/Fabíola Luciano

(****) Crédito da foto: Divulgação/Hyatt Hotels

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