Não perturbe! Casos de assédio na hotelaria são frequentes e silenciados

* Matéria atualizada às 16h04, de 12/03/19

Pare e conte até dois. Nesse minúsculo espaço de tempo, mais uma brasileira foi agredida física ou verbalmente. O Relógio da Violência, plataforma lançada pelo IMP (Instituto Maria da Penha), marca o número de mulheres vítimas de assédio e agressões todos os dias. Até o início dessa reportagem, 27.022 novos casos aconteceram em território nacional. Segundo relógio, o número de assediadas no ambiente de trabalho aumenta a cada 4,6 segundos. Neste exato momento, a conta mostra a existência de 11.659 ocorrências.

Os números não param. Outro relatório, dessa vez do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, estima que 16 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de violência na vida. O levantamento, realizado em 2018, escancara outra realidade chocante: 27,35% das brasileiras já passaram por isso na vida em algum momento.

No mesmo período, o Instituto Datafolha fez uma pesquisa ouvindo 2.084 mulheres. No estudo, casos de assédio apareceram em todas as suas nuances e ramificações. Cerca de 37% das entrevistadas foram abordadas com cantadas e comentários desrespeitosos na rua. No ambiente de trabalho, o número cai para 11,46%. Em transportes públicos, para 7,78% e outras 6,24% foram assediadas em casas noturnas.

Os números expostos acima ilustram como essa questão está infelizmente incrustrada na sociedade. Obviamente, a hotelaria não escapa dessa realidade. Embora o assunto seja muito pouco abordado, o assédio moral e sexual no setor é mais comum do que se imagina. Na avaliação das fontes ouvidas nessa reportagem, o receio de queda faz com que muitos gestores façam vista grossa para os casos, cometidos tanto por hóspedes, quanto por outros funcionários.

Assédio - Dia Internacional da MulherNão fiquem mais em silêncio: casos de assédio devem ser denunciados

Assédio: casos reais

No Dia Internacional da Mulher, a redação do Hotelier News resolveu tocar nessa ferida, que ainda permanece aberta. A reportagem conversou com três ex-funcionárias de empreendimentos conhecidos nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As três foram vítimas de assédio por parte de hóspedes e até mesmo de superiores.

Abaixo segue o primeiro depoimento, de Julia*, de 26 anos, que trabalhava em um hotel na capital paulista.

“Trabalhei durante um ano em uma rede de hotéis conhecida em São Paulo. Entrei na função de atendente de hospedagem, fazendo o serviço de recepção e atendente do bar. No hotel onde trabalhava, os funcionários faziam de tudo um pouco. Muitos hóspedes faziam brincadeiras inconvenientes e propostas indecentes para as atendentes. Era comum ouvir coisas do tipo: ‘a fulana de tal hotel faz. Por que você não’”, recorda.

“O pior caso que passei foi quando um ex-colaborador foi se hospedar embriagado. Na época, estava participando de um processo seletivo interno para mudar de área. Ele, por ser amigo do gerente, sabia do meu interesse no departamento de Eventos. Nesse dia, ele me perguntou se estava participando do processo e, educadamente, respondi apenas que sim. Ele esperou meu colega do bar sair para fazer um atendimento e começou a falar coisas do tipo ‘Nossa, Júlia, como você emagreceu. Está com AIDS? Se bem que te comeria até gordinha. Se você quiser ir para a área de Eventos vai ter que me dar’”, conta Julia.

“Enquanto falava muitas coisas desrespeitosas, ele me agarrou e tentou me empurrar para dentro do maleiro. Dei uma cotovelada, sai correndo e meu colega me ajudou. Reportei o ocorrido ao RH, que me garantiu que aquele indivíduo nunca mais aparecia no hotel. Dois meses depois, o mesmo estava fazendo o aniversário da filha no setor de Eventos”, recorda Júlia.

Casos de assédio: impactos psicológicos

Episódios de assédio de cunho moral e sexual podem trazer muitas consequências psicológicas. Dependendo da gravidade da situação, as vítimas apresentam quadros de depressão, ansiedade e síndrome do pânico. “A violência moral contra as mulheres, situações vexatórias e humilhantes são exercícios de poder sobre as pessoas”, explica Beatriz Brambilla, psicóloga e professora do departamento de Psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

“Essas mulheres são muitas vezes ‘culpadas’ pela violência sofrida. É como aquela história de que a pessoa foi estuprada porque usava um vestido curto”, explica Beatriz. “Com isso, elas vão rompendo seus vínculos sociais e afetivos. Sintomas como ansiedade e depressão são muito comuns após episódios de assédio”, acrescenta a especialista.

Stefani*, de 23 anos, atuou em um hotel conhecido no interior de São Paulo e passou por algumas situações desagradáveis com o maître executivo do empreendimento.

“Fazia faculdade em Águas de São Pedro (SP) e trabalhava de hostess do hotel. Desde que comecei no cargo, sempre ouvia piadinhas machistas, mas não via isso como um problema. Tinha apenas 19 anos na época”, relembra. “A partir do momento que ele ficou sabendo que saía com algumas pessoas de fora do hotel, minha vida virou um inferno. Ouvia piadinhas do tipo: ‘O que é isso na sua boca? Esperma?’. O mais desagradável é que ele fazia isso na frente de toda equipe”, acrescenta. “Após muitas investidas, perguntei o que ele queria. Senti que ele me maltratava porque não correspondia às investidas que ele dava em mim. Fui ofendida muitas vezes e até agredida com empurrões”, relata Stefani.

Ela conta que reclamou com a gerência do hotel várias vezes em relação às atitudes do maître executivo. “Depois de ter avisado o chef de cozinha também, a gerência conversou com ele, mas nada aconteceu. A impressão era que eu era a louca e mentirosa. No final das contas, ele acabou saindo porque a esposa ficou grávida, mas nesse tempo ele nunca foi repreendido por nenhuma dessas atitudes”, acrescenta.

Assédio - Beatriz BrambillaBeatriz é especialista no assunto e professora da PUC-SP

Como reagir

Cada pessoa reage de maneira diferente a situações de risco. Tudo vai depender dos recursos que a vítima tem para lidar com o ocorrido naquele momento. Independentemente do tipo de assédio, saber se posicionar, dizer não claramente e, principalmente, procurar ajuda são as melhores saídas.

“Pode acontecer de tudo, mas o mais importante é entender que a vítima não é responsável pelo assédio que está vivendo”, pontua Beatriz. “O confronto é sempre perigoso, o diálogo é uma via, mas pedir ajuda é sempre o melhor caminho”, acrescenta.

Mariana* tem 27 anos e sua experiência negativa ocorreu quando trabalhava na área de A&B (Alimentos & Bebidas) de um hotel de rede carioca. Ela retrata uma situação bastante comum no ambiente de trabalho: a funcionária que teme ser demitida se denunciar um superior.

“Era atendente de A&B e, logo, estava sempre próxima ao chef. Nossa relação sempre foi estritamente profissional, até um dia que ele me convidou para ir para casa com ele. Levei na brincadeira e não dei ouvidos”, conta. “Um belo dia, ele passou a mão em mim na frente de todos, sem se intimidar nenhum pouco. Fiquei muito nervosa e envergonhada na hora, gritei e ameacei reportar ao RH. Por ele ser meu superior, fiquei com medo de ser demitida e, na época, precisava muito do emprego”, completa.

Canais de denúncia

A redação do Hotelier News entrou em contato com as assessorias de imprensa de Accor, Bourbon Hotéis & Resorts, Atlantica Hotels e Marriott International questionando se as redes oferecem canais de denúncia para casos de assédio. Nenhuma delas se pronunciou até o fechamento dessa reportagem.

As três únicas redes que retornaram os contatos da reportagem foram Hyatt Hotels, Hilton e Intercity Hotéis. A empresa norte-americana confirmou que coloca à disposição de todos os funcionários um canal de atendimento e um número de telefone para comunicar casos de assédio, fraude ou falta de ética. “As plataformas estão disponíveis para todas as unidades da rede no mundo e as denúncias podem ser feitas em qualquer idioma. A confidencialidade do contato é protegida pelo Código de Ética da rede Global Hyatt Corporation”, disse a empresa, em nota.

A Hilton informou que o código de conduta da empresa oferece múltiplas formas de como os membros de equipe podem compartilhar preocupações ou incidentes, internamente e anonimamente, se necessário.

"A Hilton se esforça para manter um ambiente seguro para membros de equipe, hóspedes e visitantes. A empresa mantém e aplica várias políticas e programas criados para maximizar a segurança dos membros de equipe e criar um ambiente livre de assédio e conduta ofensiva. Além disso, a Hilton treina os membros de equipe em conduta inadequada no local de trabalho, incluindo como lidar e responder a essa conduta, seja iniciada por um colega de trabalho, hóspede ou outro visitante. A Hilton oferece canais para denúncias de má conduta e incentiva todos os membros de equipe a relatar qualquer incidente ou situação que possa causar preocupação, de modo que elas possam ser tratadas de maneira adequada e em tempo hábil", comenta a companhia, em nota. 

Já  a Intercity declarou que coloca à disposição de seus colaboradores os canais "Fale com o RH" e "Fale com o Diretor". Segundo Deyzi Weber, Gerente de Recursos Humanos da rede, o setor de RH da empresa procura sempre reforçar o Código de Conduta com os colaboradores e também fortalecer uma linha de atuação em que as lideranças estejam sempre atentas e abertas a ouvir a equipe. 

* Os nomes das entrevistadas foram alterados para preservar suas identidades

(*) Crédito da foto: Kristina Flour/Unsplash

(**) Crédito da foto: Arquivo pessoal

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