A vida de Oliver

Oliver é nascido e criado no bairro de Parelheiros

Quando se é criança, é normal ter pouca (ou nenhuma) ambição concreta. Correr pelo parque, desenhar com giz de cera no chão ou jogar videogame são atividades que normalmente satisfazem meninos e meninas. Com Oliver não podia ser diferente. No entanto, em vez das brincadeiras mais socialmente associadas ao seu gênero de nascença, preferia outros. Oliver gostava mesmo era de jogar bola.

Os meninos da escola, apesar de uma brincadeira aqui e outra ali, deixavam-no jogar. Era comum, porém, colocá-lo no gol, posição relegada a quem normalmente é o pior em campo. O problema, garante Oliver, não era sua qualidade com a bola nos pés, mas o seu sexo. “Acho que, para os meninos me verem como garoto, foram me dando apelidos como Maria Macho. Nunca liguei, achava que não valia a pena esquentar com isso”, relembra.

E Laura estava certa. Sabiamente, preferiu seguir a vida e, à medida que os anos passavam, foi emponderando-se mais e mais de quem realmente era. Na adolescência, por exemplo, passou a se sentir mais infeliz com seu corpo. Resolveu cortar seus longos cabelos cacheados, assumindo de vez uma aparência mais masculina. Na escola, as brincadeirinhas infelizes dos garotos diminuíram, passou a jogar na linha. 

Na sequência da série de três reportagens sobre transgêneros na hotelaria, o Hotelier News vai apresentar Oliver Castiel Severo, um jovem gentil e educado, além de bastante corajoso. Sua bravura, contudo, não tem nenhuma relação com a transição de gênero que está realizando, embora esse processo exija bastante intrepidez. De origem humilde, membro de uma família de pais separados bem cedo, a vida o impeliu a correr atrás de seus sonhos. Assim arrumou seu primeiro emprego em um food truck, assim aprendeu a cozinhar, assim foi parar no Grand Hyatt São Paulo. E assim vai alcançar seus objetivos.

Oliver em família 

Aos 20 anos, esbelto, de estatura mediana e de cabelos bem curtos, Oliver chama atenção pelos seus bonitos olhos esverdeados. Nascido e criado em Parelheiros, extremo sul de São Paulo, carrega em suas veias uma interessante mistura de sangues pernambucano (do pai Mário) e baiano (da mãe Maria das Graças). Combinando com seu estilo introvertido, fala de maneira calma e pausada, mirando seu interlocutor com expressão sempre acolhedora. 

“Olha, tenho que falar que tô (sic) meio nervoso”, confessaria tão logo nos conhecemos, em novembro passado. Nada mais natural, afinal seria pauta central de uma reportagem jornalística pela primeira vez. Aceitou falar sem cerimônias sobre si, isso tudo sem saber ao certo aonde aquela prosa iria parar. “Eu é que te agradeço”, disse-me várias vezes ao longo do nosso bate-papo sobre ele mesmo. Parecia não entender que, na verdade, era eu quem lhe devia reverências.

Com o tempo, foi se soltando, abrindo mais sua vida. Por exemplo: mesmo após a transição, não descarta ter filhos. “Ainda é cedo para falar sobre isso, mas por que não? Primeiro, quero sair debaixo da asa da minha mãe”, revela Oliver, que mora com ela e o irmão (mais velho). Esse objetivo, aliás, parece ser um dos seus principais no médio prazo. “É chato ter que ficar ‘mãe, me dá isso; mãe me dá aquilo’. Por isso, primeiro, quero me estabilizar, ter minha casa, meu canto”, completa.

Com Maria das Graças, Oliver mantém, em suas próprias palavras, uma relação neutra. Não há grandes conflitos, mas aparentemente falta o afeto e apoio que ele ansiava. “Sempre gostei de coisas de menino. Na adolescência, quando cortei meu cabelo, ela não gostou muito. Tive que respeitar, afinal ela quem pagava minhas contas. Por isso, ainda hoje, nunca levei meninas ou amigos gays para casa, sempre a respeitei”, diz Oliver, indicando mais uma vez o desejo de seguir sua vida de maneira independente.

Oliver - Hyatt Hotels 4Oliver, de camisa quadriculada, com os amigos do hotel

Já falecido, o pai parece ter sido a pessoa que melhor o compreendeu, mesmo não estando no dia a dia com ele. Seus pais se separaram cedo, mas mesmo assim Mário tentava ser presente na vida dos filhos. Ao morrer, deixou uma carta com um recado claro e objetivo para toda família. “Deixem a Laura viver do jeito que ela quiser ser.” “No dia do velório, não consegui nem entrar na sala para me despedir dele. Ele era a única pessoa que me apoiava”, diz.

Mesmo sem Oliver me falar, tive a impressão de que a carta foi um momento de inflexão na sua vida. “Meu pai sempre aceitou melhor minhas opções”, fez questão de dizer. Mais ainda, foi exatamente neste momento que, ao longo de nossa entrevista, ele deixou escapar seu nome de nascimento.

Ainda assim, Maria das Graças tem participação decisiva nessa nova fase da vida de Oliver. Foi ela, por exemplo, quem indiretamente deu o nome que o filho veio a adotar. “Um dia, em casa, perguntei a ela qual seria meu nome se tivesse nascido homem. Defini aí como queria ser chamado dali em diante”, conta.

O futuro

Para Oliver, é impossível falar em “sair da asa da mãe” e ser independente sem falar sobre trabalho. Desde jovem, e olha que ele é um garoto ainda, correu atrás de oportunidades. Com vídeos no YouTube, por exemplo, aprendeu a fazer sushis e, dali, conseguiu emprego em um food truck especializado na culinária japonesa.

Depois de um bico aqui, outro ali, sempre na área de gastronomia, um amigo de escola falou sobre o programa de jovem aprendiz da Hyatt Hotels. “O Kauê me falou da vaga e fiz algumas entrevistas. Na última, a recrutadora falou que se me mandasse e-mail estaria fora. Só entraria quando ela me telefonasse. Passei dias em uma ansiedade gigantesca. Consegue imaginar?”, relembra.

Oliver e KauêKauê (à dir) foi quem indicou Oliver para o Grand Hyatt São Paulo 

No Grad Hyatt São Paulo, aprendeu coisas novas, fez amizades e trabalhou com umas das coisas de que mais gosta: gastronomia. No hotel, também pôde mudar de identidade. “O Vítor, gerente do projeto jovem aprendiz, me sugeriu trocar de nome, três ou quatro meses depois de começar aqui. Eu retruquei: pode? Gostei muito da resposta dele: aqui você faz o que se sentir melhor."

Na sequência, o hotel trocou sua plaquinha de identificação e permitiu sua entrada no vestiário masculino dos colaboradores. “Não estava no primeiro dia, mas quando o encontrei vi que estava muito feliz. Não vou negar que achei um pouco estranho, mas quero vê-lo feliz. Era uma conquista que ele queria muito”, revela Kauê Rosembaum, um dos seus melhores amigos atualmente.

Sobre o futuro, Oliver pretende voltar a estudar. Sobre sonhos, um deles continuamente martela na sua cabeça. “Quero ser reconhecido pelos outros como me vejo e me identifico”. Exatamente como Mário escreveu... 

(*) Crédito da capa: Filip Calixto/Hotelier News

(**) Crédito das fotos: arquivo pessoal

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